quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Em busca do corpo perfeito

É Verão e as disposições mudam. O sol e o calor trazem mais alegria. As roupas mais decotadas e minúsculas, coloridas e cheias de vida enchem as lojas e a sua procura torna-se numa loucura. Mas... nem para todos. Para vestir essas roupas é necessário ter um corpo magro e delineado. Umas gorduras a mais são um problema, principalmente nesta época do ano.

Hoje em dia, na sociedade contemporânea assiste-se ao fenómeno do culto do corpo. A imagem corporal torna-se fundamental na busca de uma identidade e de uma expressividade diante da sociedade. O corpo é como um lócus comunicacional e os cuidados a ele dispendidos são geradores de confiança, auto-estima, garantindo o sentimento de pertença a um grupo. Nasce, então, uma cultura à imagem corporal resultante de uma idealização de perfeição. O acesso à informação através dos media disponibiliza essa imagem do corpo perfeito, que todos sonham ter, mas que nem todos podem ter. Foi na década de 20 que surgiu o ideal de magreza e o advento da dieta como forma de perder peso e auto-regulação da saúde. A adesão foi tanta que reflectiu-se no mercado alimentar ao ampliar a disponibilidade dos produtos. A explosão publicitária foi grande responsável pela difusão de hábitos alimentares relativos aos cuidados do corpo, às práticas de beleza e desporto. O sonho do corpo perfeito já faz parte do nosso quotidiano, quando somos bombardeados de revistas, programas de tv, anúncios, que nos fazem acreditar que a imagem é o principal motor de aceitação social.
E fazem-nos acreditar que “só não é magro, quem não não quer”. A quantidade abismal de revistas com programas de dietas, a publicidade a comprimidos, batidos e chás laxantes, que nos prometem uma perda de peso rápida e eficaz. “Perca 10 kg numa semana!”. Com tanta oferta seria fácil ter o corpo de sonho. Mas... até que ponto confirma-se a veracidade destas dietas?
Consta-se que cerca de 90% das mulheres já recorreram pelo menos uma vez na vida a uma dieta. Até porque é a população feminina que é mais atingida por distúrbios alimentares. O culto à beleza representa uma neurose colectiva dos tempos modernos que se espalha em ritmo acelarado de mulher para mulher. O facto das mulheres não aceitarem o corpo que têm leva-as frequentemente a fazerem dietas inadequadas, as quais põem em risco a sua saúde física e psicológica. A quantidade de informação e o excesso de publicidade, leva muitas mulheres (assim como muitos homens) a percepcionarem-se de uma forma distorcida da realidade. Esta distorção da imagem corporal real para uma imagem corporal imaginária já se encontra nos quadros da patologia (perturbação dismórfica corporal). Existe uma discrepãncia entre o peso real e o peso idealizado. Este erro de percepção leva então, a comportamentos exacerbados, com o intuito de atingir o seu ideal. Na maior parte das mulheres, acabam por sofrer de anorexia nervosa, e nos homens a vigorexia.

A vontade patológica de ter o corpo perfeito, leva muitas mulheres à prática de dietas extremamente rígidas, ao consumo de inibidores de apetite e chás laxantes, sem consultarem um especialista. Obviamente, que estas práticas acarretam consequências, por vezes irreversíveis.
Os homens, embora em menor número, também padecem desta perturbação. O seu corpo é um instrumento de sedução e de alimento de ego. O exagero na busca de um corpo perfeito poderá levar os homens à vigorexia, resultado da sua insatisfação permanente com a sua imagem. Ao contrário da mulher que quer perder peso, o homem com vigorexia vive obcecado em ter um corpo de Adónis, musculado e bem delineado. Assim, praticam exercício físico em excesso, sendo que muito aderem aos esteróides androgénicos anabólicos (os anabolizantes), drogas artificiais derivadas da testosterona que com o exercício físico exagerado provocam a hipertrofia muscular e as células passam a reter mais àgua, trazendo complicações para os tendões, ossos e ligamentos. A qualidade de vida reduz drásticamente, podendo desenvolver estados depressivos.
Tanto nas mulheres como nos homens, a prática de dietas e o comportamento compulsivo que se gira em torno do ideal de beleza, torna-se uma prioridade nas suas vidas. Desenham a sua imagem tendo como objectivo a perfeição e vivem obcecados com isso. Mesmo os que conseguem resultados, tornam-se rígidos e vivem sempre na insatisfação. Não têm auto-estima nem segurança. Quando existe uma falha na dieta, ou se falham no exercício, desenvolvem-se sentimentos de frustação e de culpa. Numa dieta que é garantida como eficiente reforçando a ideia de que com ela é possível emagrecer, caso isso não ocorra, significa que a dieta não foi seguida correctamente, ou seja, a pessoa não tem auto-controlo e é incapaz e assume assim toda a responsabilidade pelo seu próprio fracasso.
A sociedade determina um padrão de beleza que, inconscientemente, é incorporado. Na procura desse ideal de beleza de um corpo perfeito surge uma obcessão de controlo e modelagem do corpo, além da preocupação e do medo da obesidade. As informações transmitidas pelos media, enviam mensagens que influenciam o psíquico, principalmente o feminino, o principal alvo. O mercado dietético dá prioridade ao capital ignorando os danos à saúde. As mulheres procuram, incansavelmente, um ideal impossível para a maioria delas, visto que existem biótipos diferentes. É necessário ter a consciência do nosso corpo e das suas limitações. Hoje em dias, a beleza e os ideiais de beleza fazem parte da cultura ocidental. A relação que estabelecemos com o nosso corpo parte de nós em trabalhar a auto-estima e a aceitação. As dietas de emagrecimento, quando desadequadas acarretam graves riscos. Todos os profissionais como nutricionistas, endocronologistas, etc, que prescrevem dietas restritivas devem ser esclarecidos quanto aos riscos , pois cada pessoa se percepciona de forma diferente, tendo medos e receios diversificados, como marcados pela nossa subjectividade e individualidade.
As dietas restritivas não são sinónimo de bem-estar e qualidade de vida. As dietas devem ser uma mudança positiva e saudável dos comportamentos alimentares. O aconselhamento e o acompanhamento são sempre necessários, de forma a evitar consequências a nível físico e psicológico.
Daniela Rodrigues

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